15.2.12

Assim se faz a História!


A História nos diz muitas coisas. Quem somos, quem fomos e o que seremos. Nos mostra como construímos o mundo! Como o transformamos! E como o vemos, através das nossas ações, nossas ideias, nossos pensamentos. Nosso modo de viver. A História conta como vivemos nossas vidas. De onde viemos e para onde vamos. O que fizemos e o que fazemos de nossas vidas. O que faremos de toda à vida! A História é um organismo vivo inerente ao ser humano. Faz parte de nós. Vivem em nós. E cabe a nós não esquecê-la ou ignorá-la. Devemos honrá-la! Cervantes já dizia que “a história é êmula do tempo, repositório dos fatos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro.” Devemos então visitar o passado, aprendendo com os erros e se dignificando com os acertos, para que hoje, no presente, possamos construir um mundo melhor para uma vida melhor. Somente assim, poderemos nos orgulhar da História que será escrita no futuro! 

E foi assim que a história de Tiradentes foi sendo escrita e, no seu encalço, do Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes. Ao longo de trinta e cinco anos, completados hoje, o IHGT foi, através de suas ações, preservando e honrando a história de Tiradentes. Construiu uma identidade sólida e respeitável, digna, partindo do pressuposto de que a preservação da história da cidade, de sua arte, da sua cultura, do seu povo, das suas tradições, das suas lendas, da sua memória, do chão que essa gente simples e batalhadora vive e, claro, dessa própria gente tiradentina e mineira, singela, calma, que vive nas margens do tempo, levando a vida sossegada, tranqüila, quase “caipira”; é preservando esse jeito mineiro de viver que o Instituto se manteve leal aos ideais dos heróis, anônimos ou não, desta cidade. E tudo isso através de um trabalho sério, árduo e responsável do IHGT, da dedicação de seus sócios, empenhados em preservar e, ao mesmo tempo, construir essa história. 

Ontem, muitos desafios se somavam perante nossos olhos. A precariedade do estado de conservação da cidade, de sua história, tanto material como humana, era um grande obstáculo a ser vencido. A rotina, outrora rica em ouro e em arte, em ideias e pensamentos, se arrastava pelas ruas quase esquecidas de Tiradentes. Uma cidade quase abandonada, esquecida até pelos seus, teimava ainda em existir, em sobreviver. Afinal, uma história não se apaga simplesmente dos livros e da memória do mundo. Ela se transforma! Ontem, aquele cenário de esquecimento e abandono, de tristeza e lamúria se redescobriu. As imagens em preto e branco foram coloridas, trazendo vida e alegria para esse povo. Guardava em si uma nova oportunidade, escondia em seus casarões uma nova chance. A serra, majestosa em sua beleza e magnitude, protegia dos olhos vis do mundo uma nova cidade. O tempo, que insiste em dar voltas, nos trouxe um novo ciclo. Uma nova vida repleta de mudanças e novos ideais. 

Ações de preservação e conscientização nortearam os trabalhos do Instituto. Palestras, seminários, comunicações, enfim, um sem número de eventos, todos alusivos a nossa história e a de nosso povo foram realizados ao longo da vida e dos anos do IHGT. Todos, voltados para a história desta terra. História de pessoas que aqui nasceram e que levaram o nome de Tiradentes para o mundo. História que aconteceram em nossa região e que foram marcantes para nosso país. História de grandes artistas, de escritores, de estudiosos. De gente curiosa em saber um pouco mais sobre o mundo. História e estórias... Tudo isso contribuiu para oportunidades de calorosos debates, de magníficas conversas, de inesquecíveis momentos de puro enriquecimento intelectual e cultural, em que ilustres palestrantes dividiram o palco, a cena, a história com simples pessoas. Todas com o intuito de aprender um pouco mais, de aprofundar um pouco mais, de contribuir um pouco mais com essa história que tanto nos orgulha. E sem contar as muitas exposições, compostas sempre “de arte, de grandeza e de heroísmo”, que levaram aos olhos de todos uma nova visão, uma nova ótica. Um novo panorama que muitos não acreditavam ou mesmo se quer imaginavam que poderia existir sobre nossa cidade, mas que brilhantes artistas nos mostraram possíveis. 

Hoje, vislumbramos um novo caminho em nossa história. Os horizontes das montanhas alterosas estenderam-se até os limites do mundo, levando um pouco da beleza e da riqueza desta cidade. Da nossa imponente muralha, ainda vive entre seus seixos e rachaduras um sentimento de liberdade, de perseverança. Uma memória de tempos de glória. Um sentimento este que foi semeado por bravos inconfidentes. Mas a nossa Serra de São José não é fortaleza suficiente contra o tempo. Até mesmo o maior dos colossos padece sob a ação implacável do mesmo. Por isso, se faz necessário a preservação de nosso refúgio, de nossas casas, do nosso patrimônio! Algo que soaria impossível em tempos remotos, hoje se torna uma real possibilidade. Graças a incentivos do BNDES, muitos ganhos transformarão, mais uma vez, Tiradentes. Obras de restauro dos principais pontos turísticos da cidade como: as igrejas, o chafariz, e o museu – além da construção de um novo museu –, revitalização do calçamento do centro histórico, da ponte de Pedra, da antiga Estação de César de Pina, elaboração do Plano Diretor, tão necessário para os dias vindouros da cidade, projeto de educação patrimonial e ambiental, sem contar as outras obras e projetos que serão executados. Alguns capitaneados pelo Instituto, através das ações coordenadas de seus sócios e colaboradores. Outros, por demais instituições da cidade. Mas todos contribuindo para que a cidade viva plenamente por mais 300 e tantos anos. Preservar para as gerações futuras é o legado que o Instituto pretende deixar e trabalha ativamente para fazê-lo. 

E não podemos nos esquecer daqueles que aqui lutaram e que aqui se doaram. Pessoas que acrescentaram ao espírito do Instituto um pouco de suas almas. Pessoas que hoje não mais estão conosco, mas que fizeram sua história. Em especial, duas mulheres, duas guerreiras que nos deixaram neste ano de 2011. Mães que adotaram os ideais do IHGT como seus filhos também. Mário Quintana já dizia “O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo.” E a saudade sempre ira nos tirar do caminho normal do tempo. 

Por isso, não podemos nunca nós esquecer da professora incansável, da mãe dedicada, da esposa companheira. Como esquecer da nossa querida Geralda, mulher atuante e participativa, que sempre ocupava cadeiras em eventos da cidade, prestigiando e atuando, contribuindo sempre com a preservação da nossa história. E da dona Dalma, mulher ímpar, que foi fundamental para o um novo ciclo, dentro muitos que Tiradentes já teve. Presidente do Instituto, dona Dalma foi decisiva em momentos chaves que a cidade enfrentou. Ambas imprescindíveis para a continuidade dos trabalhos do Instituto. Deixaram suas marcas, seus ensinamentos. Suas histórias! Ambas, nos deixam saudades. Não choremos suas ausências. Vamos celebrar suas vidas! 

Ontem criamos a história! Hoje nós a vivemos! Mas, e amanhã? O que será dessa história nos dias que virão, neste futuro incerto e cheio de surpresas? Não sabemos! Não há como saber. Previsões, adivinhações, fórmulas mágicas para se vislumbrar o futuro não são válidas para o que desenhamos ao longo de mais 300 anos de história. É impossível retirar esse véu de incertezas e descobrir o que há lá longe, onde nossa mente sonha mas nossa razão não alcança. Devemos então desistir? Nunca! Mas podemos fazer como disse o poeta inglês, Lord Byron: "O melhor profeta do futuro é o passado." Como foi dito, devemos aprender com o passado, utilizando essa sabedoria no presente e, assim, podermos alcançar o futuro, certos de que a história que fizemos ao longo destes muitos e muitos anos de Tiradentes e 35 anos de Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes foi a melhor possível, a mais bela possível. Mas a nossa história! 

Será difícil? Não sei! Não existe fórmula mágica para o sucesso. Mas quando consultarmos o livro do mundo, onde cada um escreve um pouco, cada um contribuiu um pouco, veremos que a nossa história não será uma nota de rodapé, nem uma simples frase ou uma mera citação. Devemos ocupar um capítulo inteiro de lutas, de realizações, de conquistas e de sonhos. Sonhar não custa nada, diz a música. E, se a história me permite, vou parafrasear aquele que já tem seu capitulo na história. Um louco para alguns. Um visionário para outros. Mas, acima de tudo, um sonhador. Tiradentes, nosso herói maior? Não, não quero cometer sacrilégios. Mais uma vez, Cervantes, através de seu filho maior, Don Quixote, me emprestará sua voz: “Quando se sonha sozinho, é apenas sonho. Quando sonhamos juntos, é o começo da realidade!" Sonhemos juntos então e vamos, juntos, escrever mais um capítulo nessa história! 


 Tiradentes, 19 de Janeiro de 2012. 
Wiliam Nascimento Wiermann 
Sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes.

3.2.12

O IHGT como "espaço" de discussões político-culturais


Este texto, ainda não terminado, dado o que dele pode ser criticado, nasceu de alguns momentos pelos quais passaram o IHGT e seus membros: o falecimento de duas sócias e algumas provocações saudáveis durante as reuniões.  Tudo isso, ao ser mencionado, nos permite refletir a própria posição desta instituição e de seus sócios quanto à participação na política cultural de Tiradentes.
Quando eventualmente falamos sobre política, tendemos ao erro de acreditar que política é algo feito por políticos e por seus partidos. A noção devida deste termo, e que agora tento apresentar, remete à relação que temos com os seres e objetos. Assim como Aristóteles julgou em sua época quando disse “o homem é um animal político” (ao dizer que ele estava inserido em uma pólis[1]), é possível compreendê-lo, o homem, como um ser que está inserido em variados espaços de atuações que o fazem, por conseguinte, estar, também, em constante relação com outros homens.
Se tratamos a política por sua condição relacional, que une os seres humanos, podemos pensar tais relações focadas em contextos específicos. Isso é, em espaços específicos. Apresentados esses pontos, podemos observar no IHGT a constituição de um espaço político no qual refletimos questões voltadas à história, arte, cultura e à preservação. A importância de pensar a história dentro de contextos políticos, isto é, pelas relações que são construídas entre seres humanos, nos faz buscar pelos valores de nossas ações (valores esses gravados pela história – já que cada grupo pode ter uma versão de um acontecimento histórico). A figura de Tiradentes, por exemplo, vai além de um revoltoso detentor de determinados ideais (que alguns poderiam classificar como ideais elitistas). Tiradentes passou a ser, em momentos diferentes e pelas relações diferentes nas quais sua figura é exaltada, pessoa que viria promover ideais nacionalistas, republicanos, libertadores, democratizantes, redemocratizantes, etc. Essas possibilidades de leituras demonstram algumas variações na compreensão do espaço de atuação de grupos e indivíduos.
Podemos iniciar essa discussão acerca do espaço questionando isso que comumente chamamos de preservação. Preservamos, por exemplo, memórias; cultura material ou imaterial; preservamos relações, etc. Preservar, contudo, não significa, ou não deve significar, cegueira histórica. Quando, em nossas pesquisas, tratamos da história, a tomamos pela necessidade de elaboração do passado. Elaborar o passado é tratar daquilo que passou e que nos mantém presos às causas unilaterais, como se colocássemos “uma pedra sobre o assunto”. Elaborar o passado é estar em constante reflexão sobre a história sem deixar que ela se fundamente como um passado distante e contado por um único ponto de vista.
Mantemos com a história não apenas uma relação estética, contemplativa: julgando-a pelo movimento cultural e artístico que levou, por exemplo, a construção de monumentos como o Chafariz São José, igrejas, casarões. Também não mantemos apenas o sentido utilitarista para com estas obras. Primeiro, porquê os julgamentos sobre arte e sobre estilos de arte são mutáveis pela constante dialética de nossos juízos. Segundo, e diante dos avanços tecnológicos, por não pensar essas obras pelo que supre de nossas necessidades: as mulheres não mais lavam roupas nos chafariz, nem os cavalos bebem de seu tanque, nem necessitamos daquela obra para fornecer água para toda a cidade. Sendo assim, é necessário nos afastar de questões do tipo “para que serve isto?”. Em lugar dessa questão, talvez, devêssemos nos aproximar de outras como, por exemplo, “qual a relação temos, ou tenho, com certas obras e porquê devemos preservá-la?”.
Pessoalmente, acredito ser nesse ponto reside a importância desta instituição que hoje, dia 19 de janeiro de 2012, completa 35 anos. O Instituo Histórico e Geográfico de Tiradentes, pela atuação de seus membros, constitui um espaço de discussões específicas[2] sobre igrejas, monumentos, casarões... Neste espaço, tratamos das relações entre os sócios e aquilo que está fora do IHGT.  
Para compreender isso, é necessário aceitar que os seres humanos constroem, com os objetos e seres, relações passíveis de serem resignificadas, transformadas, valorizadas, transvalorizadas (que seja). Cada um poderá, por si, responder sobre os motivos para preservar. Alguns desses motivos, por serem pessoais, podem ser classificados como mesquinhos: posso querer preservar a matriz porquê lá fui batizado, porquê meus avós foram enterrados lá, meus pais se casaram e etc. Claro, devemos levar em consideração que não existe uma visão unilateral quanto ao motivo. Importam menos as respostas que o fato de termos as respostas. O motivo de termos as respostas é o que será comum para nós. Ou seja, quando podemos responder, mesmo que intimamente, “por quê preservar este monumento?”, estamos a dizer que temos certas relações com esta obra (relações estas que poderão ser modificadas). Não será uma única resposta que faz uma obra digna de preservação.
Durante certo tempo e em certas conversas, alguns sócios do IHGT demonstraram preocupação sobre esta instituição ser classificada como elitista, como uma casa fechada na qual os lordes ou homens bons são aceitos e podem frequentar. Quanto a isso, devemos compreender que o IHGT não tem, nem deve ter, posicionamento fechado quanto a nada que está fora dele. Ou seja, podemos tratar das igrejas e casarões, mas sem desejar que nossos julgamentos sejam os únicos. Legitimamos, por isso, a existência de outras instituições presentes aqui, em Tiradentes. Ao fazermos isso, legitimamos nosso próprio espaço de discussões: O IHGT e seus membros são constituídos (I) pela política cultural - que marca a preocupação desta instituição, (II) pelas discussões sobre a necessidade de preservar, (III) sobre pesquisas históricas, etc.
A existência de instituições com diferentes perfis permite que o instituto possa se dedicar ao que lhe é caro. Quanto às outras instituições, cabem a elas fazer os debates sobre os assuntos que lhes causam preocupações. Quanto aos sócios do IHGT, notamos sua unidade ao observar suas atuações nas temáticas sobre as quais se debruça esta instituição. Isso permite conhecer os interesses e atuações de seus membros desde sua fundação, em 1977, diante do movimento histórico. Não podemos ser julgados como homens bons ou lordes se nossa preocupação não é política partidária, nem advém da necessidade de conclamarmos grandes levas de turistas - expondo a cidade em uma vitrine midiática -, buscando lucrar com os “nossos” estabelecimentos e “patrimônios”. Em suma, por termos interesses diferentes.
Para finalizar, ao IHGT não interessa quantidade de membros, mas a qualidade de seus interesses que, é verdade, só terá uma coerência interna (já que não é devido obrigar ninguém – o externo – a pensar como nós: sobre cultura, arte, história, etc.). Não podemos ser classificados como lordes, pois aceitamos outras instituições com preocupações diferentes das nossas. Temos uma identidade institucional. Por fim, é o respeito com as preocupações e relações desta instituição, desde o início elencadas por seus fundadores (mesmo que em perspectivas diferentes), que constrói e mantém a coerência que hoje coroa o seu trigésimo quinto aniversário. 

David I. Nascimento - Sócio do IHGT
(Comunicação apresentada em sessão solene, em 19 de janeiro de 2012)




[1] Cidades estados encontradas na Grécia Antiga. É devido dizer que as relações políticas neste contexto eram construídas por homens livres (o que excluía mulheres, crianças e escravos).
[2] Específicas, aqui, não deve significar unilateral.

15.1.12

Guia da Cidade Tiradentes: Arte e História






O Guia da cidade de Tiradentes*, dado a luz em primeira edição em 1977, pela Imprensa Oficial de Minas Gerais, chega hoje à terceira edição revista e aumentada. Esta obra é dedicada aos visitantes e iniciantes na história e turismo da cidade de Tiradentes. Nele o leitor encontrará informações históricas básicas, não só político-administrativa, mas também sobre seus monumentos religiosos e civis. Informações complementares foram anexadas, como impressões dos viajantes estrangeiros no século XIX, música, teatro e pequenas notícias biográficas de homens que se destacaram na cultura, música, literatura, ciências e ainda no movimento libertário da Inconfidência Mineira, especialmente Joaquim José da Silva Xavier – o Tiradentes, filho mais ilustre desta cidade.

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* O livro Guia da cidade Tiradentes, de autoria do sócio Olinto Rodrigues dos Santos Filho, terá sua 3ª edição lançada em sessão solene no Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, dia 19 de janeiro de 2012, em comemoração aos 35 anos de fundação do IHGT. 

21.12.11

O batizado do Tiradentes e a questão de limites entre as vilas de São João e São José

Rogério Paiva – Sócio do IHGT 
 (Comunicação em reunião do IHGT do dia 20 de novembro de 2011) 

 “Aos doze dias do mês de novembro de mil setecentos e quarenta e seis anos, na Capela de São Sebastião do Rio Abaixo, o Reverendo Padre João Gonçalves Chaves, capelão da dita Capela, batizou e pôs os Santos Óleos a Joaquim, filho legítimo de Domingos da Silva dos Santos e de Antônia da Encarnação Xavier; foi padrinho Sebastião Ferreira Leytão e não teve madrinha; do que fiz este assento. O Coadjutor Jeronymo da Fonseca Alvarez”.


Nascido na Fazenda do Pombal, termo da vila de São Joseph del-Rey, em 1746 foi batizado a doze de novembro do mesmo ano em capela da Paróquia de Nossa Senhora do Pilar, de São João del-Rey. Estava feita a confusão que atravessaria os séculos. Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, era sanjosephense ou sanjoanense? Polêmica estéril e inútil que, certamente, não mudará a história ou a importância do Herói nela, mas que vem propiciando um pitoresco debate, cheio de nuances bairristas, sobre as obscuras fronteiras de São José e São João no século XVIII.

 Acusado do crime de lesa-majestade, o Alferes Tiradentes foi preso em 1789 e condenado em 1792. Enforcado, esquartejado e distribuído pelo caminho entre o Rio de Janeiro e Vila Rica, foi declarado infame, infame também a sua descendência até a segunda geração e teve seus bens confiscados. A casa em que morava, em Vila Rica, foi demolida, o terreno esterilizado pelo sal e lá foi levantado o padrão da ignomínia. Proclamada a independência, em 1822, o herói permaneceu esquecido e menosprezado para ser, enfim, resgatado pela propaganda republicana do final do século XIX, como símbolo maior do novo regime, tão sonhado pelos Conjurados de 1789.

 Foi na cidade de São José del-Rei, que os propagandistas republicanos encontraram a melhor acolhida e onde buscaram inspiração para a causa, e visitaram-na por diversas vezes em verdadeiras peregrinações cívicas. Em uma dessas ocasiões, em discurso na estação ferroviária, o republicano Antônio da Silva Jardim sugeriu a mudança do nome de São José para Tiradentes. Seria, segundo ele, uma homenagem ao herói e, ao mesmo tempo, a correção de uma injustiça, pois não soava bem o nome de um rei português para a terra natal do Mártir.

A mudança ocorreria a seis de dezembro de 1889, quando a Lei nº 3 do governo republicano provisório de Minas, chefiado por Cesário Alvim, oficializou a proposta de Silva Jardim. São José del-Rei, tornava-se Tiradentes. Curiosamente, até início do século XX, alguns documentos da Câmara referiam-se à cidade como São José de Tiradentes. Um indício, fundamentado em tradição do século XIX, de que o povo nunca teve dúvida quanto à origem do Alferes.

A Vila de São José del-Rei foi criada a dezenove de janeiro de 1718, quando D. Pedro de Almeida Portugal, Conde de Assumar, Governador das Capitanias de Minas e São Paulo, elevou à categoria de Vila o Arraial de Santo Antônio. Com o ato, o Conde atendia aos vários requerimentos dos moradores do lado direito do rio, que alegavam dificuldade em atravessá-lo para resolverem suas questões em São João del-Rei. O rio, volumoso na época das chuvas, devia ser um empecilho respeitável, causador de incontáveis mortes que lhe valeram o nome.

 São José del-Rei nasceu sob intensa disputa. A criação de uma nova vila, tão próxima, incomodou profundamente a Câmara de São João, que reagiria imediatamente. Transformada em vila em 1713 e em sede da Comarca do Rio das Mortes em 1714, São João del-Rei dominava vasto território, que se confundia com o próprio território da Comarca, uma vez que era a única vila ali existente, até então. Assim sendo, o surgimento de uma nova vila significou também o aparecimento de uma rival, pelo menos no entendimento das autoridades sanjoanenses daquela época.

De imediato, a Câmara sanjoanense representou a D. João V contra o ato do Conde de Assumar, mas o Rei confirmaria a nova vila a de doze de janeiro de 1719. A três de fevereiro de 1718 foi nomeado o termo da Vila de São José, ficando estabelecido o leito do Rio das Mortes como limite entre as duas vilas, conforme o desejo dos moradores da região, atendido pelo governador e pelo Rei. A sete de março a Câmara de São José solicitou ao governador a concessão de meia légua de terras em quadra para obter seus rendimentos, como era de praxe, para a manutenção da Câmara e dos serviços públicos. Nova reação da Vila de São João del-Rei veio a 28 do mesmo mês, com ato do ouvidor geral da Comarca, Valério da Costa Gouveia, que estipulou meia légua em circunferência, fazendo peão na vila. Esse ato diminuiu a sesmaria patrimonial da Câmara de São José, que protestou imediatamente. Na sequência, a controvérsia instalou-se quanto à verdadeira madre do Rio das Mortes. Havia a dúvida se o Rio Elvas desaguava no Rio das Mortes ou se era seu curso principal. Para resolver a questão o Conde de Assumar veio à região em meados de 1719. Daí em diante não aparece nova delimitação territorial até a correição de 1755, que apenas confirma limite do rio, entre as duas vilas. No entanto, a discussão nunca encontrou ponto pacífico e, nos bastidores, a disputa continuou acirrada. A fibra do povo de São José, que seria mais tarde personificada na figura animosa do Tiradentes, fez com que a vila ocupasse de fato o que lhe cabia por direito, ou seja, a margem direita do Rio das Mortes, conforme o desejo do povo, atendido em janeiro 1718.

A partir da década de 1920, a mera questão de limites entre as duas vilas tornou-se verdadeira cruzada cívica, motivada por reações ao livro Ligeiras Memórias Sobre a Vila de São José nos Tempos Coloniais, de Herculano Veloso. O ex agente executivo de Tiradentes, profundo conhecedor dos arquivos históricos da cidade, tratou da questão dos limites entre as duas vilas e demonstrou a posse sanjosefense dos terrenos que se situavam à direita do rio, o que incluía, circunstancialmente, a Fazenda do Pombal, berço de Joaquim José da Silva Xavier. Ocorre que, nessa época, a imagem do Tiradentes, já restabelecida pela República, tornara-se atrativa, e a antiga questão de limites passou a concentrar-se na reivindicação de seu local de nascimento. A reação sanjoanense veio através de Basílio de Magalhães, com artigos publicados na imprensa local. Em 1976 surge o livro As Vilas Del-Rei e a Cidadania de Tiradentes, de Eduardo Canabrava Barreiros. Livro que, segundo o próprio autor, foi escrito sob encomenda de vereadores de São João del-Rei, no afã de resolver a questão em torno da naturalidade do Alferes. Nesse ínterim, outros escritores trataram do assunto, com pouca variação em relação aos escritores supracitados.

Basílio de Magalhães pretendeu questionar Herculano Veloso com argumentação baseada em três pontos: 1- o próprio Tiradentes se identificou como sanjoanense no interrogatório de 22 de maio de 1789, publicado nos Autos de Devassa; 2- a carta de sesmaria da Câmara da vila de São José era de meia légua em circunferência, o que não atingia a Fazenda do Pombal; 3- apenas com a correição de 1755 o território onde se encontrava a Fazenda do Pombal teria passado à jurisdição da Vila de São José, mesmo assim, por pouco tempo. Além disso, Basílio questiona a legitimidade da participação política do pai do Tiradentes, Domingos da Silva dos Santos, na vila de São José. Para refutar o fato embaraçoso de Domingos ter sido eleito almotacé e vereador por São José em 1746 e 1754, respectivamente, o que comprova sua residência no local, o escritor cita o caso de um sujeito que teria ilegalmente ocupado cargos de vereador nas duas vilas del-Rei, pelo que fora repreendido pelo Rei. E o escritor levanta a hipótese de que o mesmo pudesse ter ocorrido ao pai do Tiradentes...

 O outro estudioso do assunto, Eduardo Canabrava Barreiros, partindo de Basílio e Herculano, também pretendeu resolver a intrincada questão. Traçou um triângulo com a finalidade de encerrar a polêmica em torno dos limites das vilas e decretou: Tiradentes é sanjoanense porque: A) Foi batizado em capela pertencente à freguesia de Nossa Senhora do Pilar, de São João del-Rei; B) Nasceu na Fazenda do Pombal, termo da vila de São João; C) O próprio Tiradentes declarou-se sanjoanense, no interrogatório de 1789, também citado por Basílio.

Louvável esforço, sem resultados práticos. Nem os três argumentos de Basílio, nem o triângulo de Barreiros encerraram a polêmica, e por um fato muito simples: deixaram margem ao questionamento e à contraprova. Contaram apenas a uma versão da história. Diante disso, passemos a analisar os argumentos desses autores e a apontar alternativas, não com o intuito desnecessário de provar a naturalidade sanjosefense do Tiradentes, o que é irrelevante para a grandeza do Alferes, ou para a sobrevivência de nossa cidade, cujo sucesso de marketing turístico se deve mais à preservação arquitetônica, ambiental e cultural do que propriamente ao nome do filho ilustre, que, no entanto, ostentamos com orgulho.

Vejamos, então, a opinião dos dois escritores e as alternativas não consideradas por eles:

1º - Joaquim José da Silva Xavier é sanjoanense porque batizou-se na Capela de São Sebastião do Rio Abaixo, freguesia de Nossa Senhora do Pilar, de São João del-Rei: Quanto ao assento de batizado do Tiradentes, reproduzido no início deste texto, ocorre confusão, deliberada ou não. De fato, a Capela de São Sebastião do Rio Abaixo pertencia à Paróquia de Nossa Senhora do Pilar. Se a hipótese de Barreiros estivesse certa, e essa capela estivesse do lado esquerdo do rio, também sua localização pertenceria ao Termo da Vila de São João del-Rei. Por outro lado, se a tal capela ficasse do lado direito, continuaria pertencendo, eclesiasticamente, à Paróquia sediada em São João, mas em território de São José. Naquela época, e ainda hoje, os limites administrativos das vilas não precisavam coincidir, necessariamente, com a jurisdição eclesiástica. A localização da Capela e sua jurisdição eclesiástica, no entanto, não faz a menor diferença quanto à definição da naturalidade do Tiradentes. Ele não nasceu dentro da capela, apenas foi ali batizado. O Herói nasceu na Fazenda do Pombal, à margem direita do rio, termo da Vila de São José desde 1718. Se na época existisse o registro civil, certamente esse documento seria registrado em São José. Mas esse documento não existe e nem precisa existir, pois seria anacrônico. Há, no entanto, outros e inúmeros documentos que comprovam a posse sanjosefense do território à direita do rio, àquela época, como o emblemático testamento do Sargento-mor João Gonçalvez Chaves, no qual fica claro que jurisdição eclesiástica não coincidia, necessariamente, com jurisdição territorial. Diz o documento: “...nesta paragem do Rio Abaixo Capella de São Sebastião fillial da matriz de Nossa Senhora do Pillar de Sam Joam del Rei comarca do Rio das Mortes e Termo da Villa de Sam Joseph, onde eu João Gonçalcez Chaves sou morador....” (livro de óbitos da freguezia de Santo Antônio da Villa de S. José. 1746-1768. Fls. 356-362- Arquivo Paroquial de Tiradentes). Dirão alguns que esse documento é de 1759, e que nessa época imperava a correição de 1755. Note-se, entretanto, que a capela continuava a pertencer eclesiasticamente a São João, apesar de estar em terras de São José, ou seja, mesmo que o território tenha passado para São José, através da tal correição, a capela continuou pertencendo à paróquia sediada em São João. Isso prova que as duas coisas não se misturavam, necessariamente. Por semelhança, pode-se concluir que o registro de batismo do Tiradentes não é suficiente para indicar sua naturalidade, pois não indica o local do seu nascimento. Por outro lado, o testamento do Sargento-mor vai contra a opinião de Barreiros de que essa capela ficava do lado esquerdo do rio. Se assim fosse, mesmo a partir de 1755, não poderia pertencer a São José, como consta no documento citado.
 2º - Joaquim José nasceu na Fazenda do Pombal, cujo território a sesmaria de São José del-Rei não alcançava: Ora, todos sabem que essa sesmaria de meia légua de terras, em quadra ou em circunferência, referia-se apenas à área destinada aos rendimentos da Câmara, como ocorria em todas as demais vilas, inclusive São João, sem significar a totalidade do seu território. Não seria absurda a criação de uma vila com área tão diminuta? No caso de São José, isto ainda deixaria de contemplar o principal motivo da criação da Vila, que foi o requerimento dos moradores do lado direito do rio, que não queriam mais correr o risco de atravessá-lo para irem a São João. E como explicar a vinda do Conde de Assumar em 1719 para dirimir dúvidas sobre o verdadeiro leito do Rio das Mortes? E como explicar a existência dos inúmeros distritos da Vila de São José fora dessa limitada sesmaria? Seria apenas a avareza e desobediência dos vereadores de São José, que promoveram uma expansão avassaladora? Seria isto possível nas barbas da poderosa São João?  Sabe-se que o termo da Vila de São José chegou, no século XVIII, a fazer divisa com a capitania de Goiás. Por outro lado, confundir a área da sesmaria da Câmara de São José com a totalidade de seu território, autorizaria a aplicar o mesmo raciocínio com relação a São João, cujo termo seria, então, de duas léguas em quadra, conforme sua carta de sesmaria de 1714. Por que os limites de São João podiam extrapolar sua sesmaria patrimonial e o mesmo não poderia ocorrer a São José? Comarca do Rio das Mortes era uma coisa, Vila de São João del-Rei era outra. As coisas mudaram com a criação da Vila de São José e São João já não impera soberanamente na região. Aplicando, ainda, o mesmo raciocínio: se a Fazenda do Pombal não pertencia a São José, por estar fora da sesmaria da Câmara dessa vila, conforme dissera Basílio, por que pertenceria a São João, cuja sesmaria também não a alcançava? E por que a alegada perda do território referente às catas de São Francisco Xavier pela sesmaria de São João, que poderia ser compensada em qualquer direção, o seria exatamente na direção das terras da Fazenda do Pombal? Por ter sido o berço do herói? São muitas as questões possíveis, mas a resposta é invariável: Se a área onde se localizava a Fazenda do Pombal, pertencia ao Termo da Vila de São José, não é por ter sido berço do Mártir, mas por localizar-se do lado direito do Rio das Mortes. Essa era a divisa natural e oficial entre as duas vilas desde 1718. A correição de 1755, citada por Basílio e Barreiros, não provocou qualquer mudança nesse panorama, pois manteve o leito do Rio das Mortes como divisa. O argumento de que a paragem São Sebastião do Rio Abaixo, onde estava a Fazenda do Pombal ficava fora da vila de São José por estar fora de sua sesmaria patrimonial é fraco e insuficiente como prova, já que, aplicada a recíproca, o mesmo ocorreria a São João del-Rei. Sesmaria patrimonial de uma câmara não significava a totalidade territorial dessa mesma vila.

3º- Tiradentes declarou-se natural de São João del-Rei em depoimento de 22 de maio de 1789, publicado nos Autos de Devassa. De fato, lá está escrito que o Alferes se disse natural de São João del Rei, mas também, no mesmo documento, o Alferes disse ter 41 anos de idade. Ora, se o Tiradentes nasceu em 1746, como poderia ter 41anos em 1789? E se o Alferes errou sua idade, porque não poderia errar o local de seu nascimento? E se esse erro foi do escrivão, por que o mesmo não poderia errar a naturalidade de Joaquim José? Por outro lado, nos mesmos Autos de Devassa, volume 9, há petição através da qual Joaquim José solicita a antecipação de sua maioridade, por ser órfão e ter que cuidar do seu patrimônio. Nesse documento, ignorado pelos escritores citados, consta sua naturalidade sanjosefense. Além disso, a carta que concede a maioridade a Joaquim José, a quinze de julho de 1767, ordena que seja feita uma justificação perante o Juiz de Órfão da Vila de São José del-Rei. Isso não faria sentido se o Alferes fosse sanjoanense.  Portanto a informação extraída do depoimento de 1789 entra em contradição no mesmo depoimento e com outros documentos citados no mesmo Processo, o que a invalida como prova.

A questão de limites entre as vilas de São João del-Rei e São José del-Rei no século XVIII é assunto polêmico e a disputa em torno da naturalidade do Tiradentes está intrinsecamente ligada a ele. Haverá sempre o ardor cívico que, de cada lado, lutará pela honra de proclamá-lo conterrâneo. Ressalto, porém, que o intuito desta comunicação não é fazer apologia cega a uma posição bairrista. Quem questiona os escritores Basílio e Barreiros não sou eu, é a lógica... O que a faz a História são os documentos e, enquanto não surgirem documentos novos ou inéditos, que possam justificar uma revisão dessa História, limitemo-nos aos existentes:

“AUTO DE CREAÇAM DA VILLA DE SAM JOSEPH COM O SEU TERMO”

“Anno do nascimento de nosso Senhor Jesus Christo de mil setecentos e dezoito annos. Aos vinte e oito dias do mês de janeiro do dito anno em o arrayal velho freguezia de Santo Antônio onde eu escrivam da ouvidoria geral vim com o coronel Antonio de Oliveira Leitam que de prezente serve de ouvidor geral por empedimento do Doutor Valério da Costa Gouvêa e sendo ahy prezente a nobreza clero e povo mandou o dito ouvidor em virtude de um despacho de Dom Pedro de Almeida Portugal governador e Cappitam general de Sam Paullo e Minas posto em huma petiçam que lhe fizeram os moradores do mesmo Arraial cuja copia lê a que se segue: Dizem os moradores da freguezia de Santo Antonio do Arraial velho que lhes se acham com grande prejuízo e empedimento para tratarem os seos negócios na Villa de Sam Joam del Rey por estarem da outra parte do Rio das Mortes cujas pasagens sam muito arriscadas e perigosas principalmente no tempo das augoas em que as suas enchentes o impossilibitam a recorrer a Villa de Sam Joan Del rey e fica todo este povo sem aquelle recurço para as partes alem de ter esprementado que muitas pessoas que neste tempo se arriscarm a passae se afogaram por nam haver canoas em que com segurança pasasem e perdem nam so seus negócios particulares senam do bem publico: E como esta freguezia he huma das mayores das minas e esta mais distantes da villa com muita largueza de matos para rossas como te lavras e faisqueiras permanentes Ai tem os moradores a suas cazas coaze todas cobertas de telhas por estarem as olarias perto da freguezia e para que melhor se possa o serviço de sua Majestade assim na arrecadaçam dos seos  quintos pois he sem duvida que coantas mais pessoas nesta diligencia se empregarem tanto mais fácil será dita cobrança e se nam experimentara o que sosedeo este anno em algumas (villas) que por terem os seos districtos excecivamente dillatados crecidos por cobrar com grande detrimento (e despeza da fazenda) real na dilaçam da frota do (Rio de Janeiro como também serão) mais bem obedecidas as ordens (que vossa Excellencia por servido dis) trebuyr cuja exzecuçam (ficara mais prompta e facilitada) por haver muitos moradores e poderozos com os quaes se poderá conservar uma boa villa das maioresdestas minas sem prejuízos da Villa de Sam Joam del Rey por lhe ficar inda hum grande distrito e por que já em outra ocaziam pelas justificadas razoes que aprontam fizeram o mesmo requerimento ao antesecor de Vossa Excelência no que nam foram deferidos por se mandar enformar de algumas pessoas que nam tinhao conveniência em que se erigiçe em Vila o dito Arraial de Santo Antonio posto que de nenhum modo esta materia prejudica a terceyros antes redunda em mais utilidade do serviço de sua majestade e bom regime dos povos: Esperamos da reta instiça de Vossa excelência que informado de pessoas desapaixonadas seja servido dar-nos o despacho que esperamos. Portanto pedem humildemente a Vossa Excelência que atendendo ao referido e por evitar algumas desuniões entre estes moradores e pella utilidade do serviço de El Rey lhe faça mercê erigir a dita freguezia em Villa e receberam mercê. Joam Ferreira dos Santos/ Joam André de Matos/ Silvestre Marques da Cunha. Domingos Ferreira dos Santos. Joam de Oliveira. Miguel Rodrigues. Manoel Pinheiro. Domingos da Silva. Domingos Rocha Moreira. Domingos Ramalho de Brito/ Manoel da Silva de Moraes/ Diogo Alves Cardozo/ Jonio Frenandes Preto/ Gonçalo Mendes Cruz/ Manoel Martins Machado Gonsalo Lima Rego – A cuja pitiçam esta o despacho seguinte: vistas as razões alegadas pello suplicantes e as imformaçoens que dellas tirei concedo (o que me pedem) e par o dito Arrayal de Santo Antonio seja erijido em Villa co o nome de Sam Joseph e o Doutor ouvidor da Comarca do rio das Mortes ou que em seu lugar servir lhe lenvatara Pelourinho e dara posse forma de estylo começando o distrito da nova Villa da banda de ca do rio das Mortes. Villa do Carmo dezenove de janeiro de mil setecentos e dezoito annos e na forma do dito despacho mandou o dito ouvidor sentar Pelourinho em o largo e praça que faz no dito Arrayal abaixo da freguezia erigindo com elle Villa da qual deo logo parte aos moradores como também do seu termo e distrito começando este da banda deca do Rio das Mortes com cuja posse acertaram reconhecendo todos ser esta Villa de Sam Josph novamente ereta do Senhor Rey Dom Joam o quinto e seus sucesores a quem obedeceram como seu legitimo senhor e suas justiças e de como assim aseitaram a dita posse mandou o dito ouvidor fazer este auto de creaçam e posse que asignou com as pessoas que se acharam prezentes, e eu Luiz de Vasconcellos Pessoa Escrivam da Ouvidoria Geral e Correiçam que o escrevi”.
Antº Olivª Leitão/ Luiz vasconcellos Pessoa/ Antº Frz Preto/ Silvestre Marques da Cunha/ Manoel da Costa Souza/ Constantino Alz de Azevedo/  Manoel P da Costa/ Manoel GLZ Moinhos/ Francisco A Roza/ Pedro Stone de Souza/ Diogo Alvarez Cardozo/ Domingos Ramaho de Brito

“TERMO DA REPARTIÇAM DESTA DESTRITO DA VILLA”

“Aos tres dias do mes de Fevereiro deste prezente anno de mil setesentos e dezoito annos nesta villa de Sam Joseph nas casas da camara della estando prezente o ouvidor geral desta Comarqua com os officiais da camara della o juiz ordinario o Capitam Manoel Dias Araujo, o capitam Mor Manoel Carvalho Botelho também juiz, os veriadores o capitam Domingos Ramalho de Brito,Manoel da Costa Souza, Constantino Alves de Azevedo e por empedimento do procurador asestiu o Sargento Mor Silvestre Marques da Cunha que para isso pellos ditos officiais da camara foi chamado, e sendo ahy pellos ditos officiais da camara foi dito e Requerido ao dito ouvidor geral que em virtode do despacho da petiçam ao Senhor General lhe nomeace o termo que devia ter esta [villa ] a que visto pello dito ouvidor lhe nomeia por [ termo ] de diviza o Rio das mortes da Banda de ca entrando pello Ribeiram chamado Alves por ser a verdadeira madre do dito Rio das mortes e que os mais eram braços [ do tal ] Rio e que outro sim eram os moradores desta freguezia e estarem em posse...[ desde a primeira criaçam sogeitos a freguezia de Santo Antonio a ] chamavam Arrayal Velho e que asim os moradores da banda do dito rio para ca sejam sogeitos a esta villa, e nesta forma ouve o termo della por divizado e de como os ditos officiais asim o aseitaram e o dito ouvidor assim lho repartio fiz este termo a que asignaram, eu Luiz de Vasconvellos Pessoa Escrivam da Ouvidoria Geral e correicam que o escrevi."


Antº Olivª Leitão/ Manoel Dias de Araújo/ Mel Carvª Botelho/ Manoel da Costa Souza/ Constantino Alz de Azvº/ Silvestre Marques da Cunha/ Domingos Ramalho de Brito

( Livro primeiro de Acórdãos e Criação da Vila de São José,1718 – 1722 – fls 1, 1vo ,, 2, 2vo. – Arquivo do Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes).




  

11.12.11

Um sábio de Minas


Texto: Olinto Rodrigues dos Santos Filho*

 José Veloso Xavier nasceu em outubro de 1741 na antiga vila de São José, atual cidade de Tiradentes, em Minas Gerais. Era filho de José Veloso do Carmo, português de Braga, e Catarina de Jesus Xavier, natural da vila de São José. Era primo do alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, e do padre Antônio Rodrigues Dantas, autor da famosa Explicação da Sintaxe, publicada em Lisboa no ano de 1775 e várias vezes reeditada. Entrou para a ordem franciscana em 1761, onde adotou o nome de José Mariano da Conceição, e estudou no Convento de São Boaventura de Macacu, hoje em ruínas, no município de Itaboaraí (RJ).

Em sua vida religiosa, ordenado em 1766, logo em 68 foi nomeado pregador. Transferido depois para a aldeia indígena de São Paulo (São Miguel), desenvolveu trabalho de pregação e conversão dos gentios, tendo ainda regido as cadeiras de Geometria (1771) e Retórica (1779) do Convento da cidade de São Paulo.

Durante sua estada em São Paulo iniciou estudos da flora local com tanto interesse e competência que chegou aos ouvidos do Vice-Rei Luiz de Vasconcellos e Souza, que mandou vir Frei Veloso para o Rio. Sediado no Convento do Largo da Carioca, o Frei teve licença para fazer excursões científicas pelo Estado do Rio, coletando e classificando as plantas daquela região, sob os auspícios do Vice-Rei.

Ao fim de cerca de nove anos de trabalho Frei Veloso apresentou ao seu protetor a obra concluída, a Flora Fluminensis, com cerca de 1600 plantas classificadas e desenhadas por Frei Solano, no ano de 1790. por esta importante obra é hoje conhecido como “Pai da Botânica no Brasil”. Regressando D. Luiz para a Corte, leva Frei Veloso com sua obra e seus desenhos, que seriam enviados à Itália para abrir as chapas. Em Portugal, o sábio mineiro dedica-se de corpo e alma a uma importante empreitada de editar obras úteis à agricultura e indústria agrícola no Brasil, as quais denominou O Fazendeiro do Brasil.

Publicou dez volumes em editoras diversas de Lisboa, tendo posteriormente, ainda sob a égide de D. Luiz de Vasconcellos, fundado e dirigido a tipografia do Arco do Cego, localizada em uma quinta naquele bairro, onde juntou um grupo de jovens brasileiros ilustrados para traduzir e editar obras de interesse para sua pátria. Deste grupo contavam Nogueira da Gama, padre Viegas de Menezes, Antônio Carlos e Martim Francisco de Andrada e Silva, Hipólito José da Costa, José Feliciano Fernandes Pinheiro, Vicente Seabra Silva Teles, José Ferreira da Silva, João Manso Pereira, Manoel Arruda Câmara e Manoel Rodrigues da Costa.

 O Arco do Cego foi responsável pela introdução da moderna tipografia em Portugal, tendo inclusive oficina de gravura com aprendizes e fundição de tipos em anexo. Um dos ilustres trabalhadores da editora foi o poeta Manoel Maria Barbosa Du Bocage. Extinta a tipografia do Arco do Cego, Veloso passa para a Imprensa Régia, até que as invasões napoleônicas o fazem retornar ao Brasil e desviam para a França as pranchas já prontas da Flora Fluminensis. Sua maior obra fica, então sem editar.

Após sua morte, ocorrida no Convento de Santo Antônio, no largo da Carioca, Rio de Janeiro, o Imperador D. Pedro I mandou editar em 1825 a Flora Fluminensis, impressa na Imprensa Régia e com litografias encomendadas em Paris. Os exemplares editados ficaram depositados na Academia de Belas Artes, onde foram quase totalmente destruídos pelos alunos daquela instituição. A coleção completa da Flora Fluminensis é hoje considerada uma raridade bibliográfica.

Quando se completam 200 anos do falecimento deste homem de excepcional espírito científico, a cidade de Tiradentes, que foi seu berço natal, através do Instituto Histórico Geográfico, o homenageia.


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*Sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes